Uma descoberta científica brasileira tem reacendido a esperança de milhares de pessoas que convivem com a tetraplegia. A proteína experimental chamada polilaminina, desenvolvida pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, vem sendo apontada como uma possível revolução no tratamento de lesões da medula espinhal. A substância atua estimulando a reconexão de neurônios danificados, permitindo que sinais do cérebro voltem a alcançar partes do corpo que haviam perdido o movimento após um trauma.
Os resultados iniciais do tratamento experimental chamaram a atenção da comunidade científica e também de pessoas que convivem há anos com a paralisia. Em alguns casos acompanhados por pesquisadores, pacientes com lesões graves na medula apresentaram recuperação parcial ou significativa de movimentos após a aplicação da molécula, ainda que o tratamento esteja em fase experimental e precise passar por novas etapas de testes clínicos antes de se tornar amplamente disponível.
Entre aqueles que acompanham esse avanço com expectativa está o vereador de Presidente Prudente, Douglas Kato, que ficou tetraplégico após um acidente de moto em 2004. Recentemente, ele teve a oportunidade de conversar com uma das pessoas que passaram pelo tratamento experimental da polilaminina e apresentou uma melhora incrível após a aplicação.
Douglas Kato fala sobre a esperança, cautela científica e o que representa para milhares de brasileiros que vivem em cadeira de rodas a possibilidade, ainda que distante, de recuperar movimentos e autonomia após tantos anos.
Diário de Prudente – Vereador, o senhor convive com a tetraplegia há mais de duas décadas, como recebeu notícias sobre o desenvolvimento da polilaminina e essa possibilidade de recuperação de movimentos?
Douglas Kato – Eu fico muito feliz em saber que no nosso país existem pessoas com essa capacidade de pesquisa e tudo mais, desenvolvendo isso há mais de 20 anos praticamente. E ao receber a notícia nós ficamos, no primeiro momento, receoso porque são promessas que nos trazem esperança e expectativas, a exemplo da células-tronco. Mas foi uma notícia agradável ao saber da situação da possibilidade de melhora das nossas condições.
Diário – O senhor chegou a conversar com um dos pacientes que passou pelo tratamento experimental. O que mais chamou sua atenção no relato dessa pessoa?
Douglas Kato – Sim, conversei com o Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular aguda em 2018. O Bruno foi o primeiro paciente que fez a aplicação de polilaminina lá no Rio de Janeiro. Foi em fase de testes na época. Já faz um tempo, inclusive. Ele tinha acabado de sofrer uma lesão medular e o que mais chamou atenção é a resposta que ele teve da lesão, que era completa. E teve uma grande melhora nos seus movimentos. Hoje ele tem toda autonomia, obviamente que tem leve sequela. Mas a autonomia é muito grande, é um menino pra frente, é muito atencioso por sinal.
Diário – Na sua avaliação, essa descoberta representa apenas uma esperança distante ou já pode ser vista como um caminho concreto para o futuro da medicina?
Douglas Kato – Eu vejo como algo se criando a nível de protocolo. Então é uma esperança real. Eu falo em especial pra casos agudos, para pessoas recém lesionadas, por exemplo. Quem tem agora um trauma num mergulho, arma de fogo, acidentes automobilísticos ou qualquer que seja, mas que venha a carretar uma lesão medular. Nessa fase aguda eu entendo que já é uma realidade e tem que ser explorada sim. Acho que dificilmente mal vai fazer. Existem alguns casos em que se levantou a hipótese de que pessoas vieram a óbito, após a aplicação da polilaminina, mas que na verdade a causa claramente é a foi a própria lesão medular, que é muito complexa. Eu quando sofri meu acidente de moto, só tinha 1% de chance de vida, tenho certeza que se tivesse aplicado a polilaminina não ia fazer mal, ao ponto de tirar esse 1%, pelo contrário daria muito mais movimentos, mas enfim, vejo essa descoberta como algo já no presente e para os futuros casos crônicos como o meu.
Diário – Quem vive com tetraplegia enfrenta desafios físicos, emocionais e sociais. Que impacto psicológico uma notícia como essa causa em quem está nessa condição há muitos anos?
Douglas Kato – Sim, bastante. No meu caso aqui, de um caso crônico. A sensação é de esperança mesmo, um sentimento de esperança. De algo que possa vir a mudar a nossa realidade, diante de tamanhas dificuldades, tamanhas limitações físicas, é uma questão que de fato traz um impacto positivo sim, e nos motiva a cada vez mais estarmos preparados pra as possíveis aplicações.
Diário – Muitas pessoas com tetraplegia dependem de benefícios previdenciários por invalidez. A recuperação física de muitas pessoas poderia impactar o INSS de alguma forma ?
Douglas Kato – Cara, sem sombra de dúvida, eu acho que é um ciclo virtuoso nesse caso, não está só relacionado à questão do INSS, mas em si a nível de qualidade de vida de outros problemas de saúde que é acarretado por conta da lesão medular. Como questões de infecções urinárias, as escaras e a questão até mesmo da independência, da autonomia dessas pessoas e do retorno ao mercado de trabalho também. Para voltarem a ser produtivos, porque muitos acabam se encostando pelo INSS, se aposentam, mas tem condições de contribuir ainda, porém, como que ele vai sair da aposentadoria para uma formalidade em um país que a renda é muito pequena e não tem nenhum atrativo para que isso aconteça, apenas alguns programas do governo federal, que em si são pouco acessados, a exemplo do aprendiz PCD e outros. Mas acarretaria, sim, o impacto de forma positiva, porque o INSS está quebrado, e cada PCD neste caso curado da lesão, seria um a menos para ele bancar.
Diário – O senhor acredita que o Brasil está preparado para oferecer um tratamento como esse pelo sistema público de saúde, caso ele seja aprovado?
Douglas Kato – Eu acho que sim, de forma tranquila. O Brasil tem uma saúde. O que falta muitas vezes é organização. Porém, isso deve acontecer de forma gradativa. Imagino eu que, assim que aprovada pela Anvisa, o SUS irá ter condições sim de oferecer os protocolos e tratamentos necessários. Temos grandes centros, grandes instituições, espaços importantes, a exemplo da rede do Lucy Montoro, aqui mesmo em Presidente Prudente. Em se tratando de casos agudos, como o meu, acredito que será direto nos hospitais, mas dependerá de como será formada a rede de profissionais, para a utilização desse medicamento, mas precisa de organização, porque são muitos casos de lesões medulares diariamente, não é possível a mesma equipe estar em todo o lugar.
Diário – Por fim, que mensagem o senhor gostaria de deixar para outras pessoas tetraplégicas ou paraplégicas que hoje acompanham essas notícias com esperança, mas também com cautela?
Douglas Kato – Bom, a mensagem que eu deixo é que tenham fé, mantenham-se esperançosos, mas não esperem apenas pelo apoio da polilaminina. Mantenha-se firme, com saúde, buscando melhorar os hábitos, porque quando isso aconteça, e caso venha a acontecer, a gente esteja pronto para receber as aplicações. E recebendo essa dose e vamos tocar a vida da melhor forma possível, contribuindo com a sociedade da forma que pode e sem deixar a peteca cair. Mantenha-se firme, com a cabeça erguida e com a mente boa.










